Finalizando o tema de Dezembro/2016 o qual foi dedicado à reflexão sobre a realidade do emprego doméstico no Brasil, deixo abaixo os pensamentos gerados a respeito do tema.
Grande parte destas reflexões foram advindas de três pontos principais: a leitura de relatos de empregadas domésticas, camareiras, faxineiras, diaristas, funcionárias de limpeza de empresas terceirizadas (para empresas, universidades), a conversa com estas mesmas pessoas e a leitura de anúncios que requerem estes serviços.

A leitura de anúncios, na maioria das vezes abusivos (e muito bem compilados pelo projeto #euempregadadomestica) é grande reflexo de que a opressão começa muito antes sequer da contratação. O menosprezo, a desconsideração de direitos básicos e a clara separação entre funcionária e ser humano choca. Anúncios que oferecem R$450,00 mensais para cuidar de 3 crianças, 6 dias por semana até míseros R$300 mensais para trabalhar nos dias de semana meio período. Anúncios que negam a alimentação quando a funcionária trabalha o dia todo, ou explicita que não pode comer da mesma comida que a família. Exigências de horário para dormir, exigências de uso de uniforme para que esteja clara que a pessoa não pertence àquele lugar. O desconto no salário de um kilograma de arroz que por descuido queimou, pois estava limpando a casa.

Os relatos, surpreendem ainda mais e em dois pontos muito fortes me abateram. Em muitos deles, a grande exigência de limpeza de janelas e vidros em apartamentos gerando altíssimo risco de acidente pela altura. É compreensível a necessidade da limpeza, mas existem limites para cada tipo de serviço, principalmente considerando a idade e estado físico das pessoas. O segundo ponto, que por ser intangível parece pouco, mas é de grande impacto, é o grande número de patrões/patroas que negam à funcionária o direito de votar para que fiquem em casa cuidando de seus filhos. Justificam então que pagariam a irrisória multa para a funcionária mas não se dão conta que estão ferindo um direito democrático. No Brasil, a cidadania ainda é um privilégio.

Ainda há muito que mudar em nossas atitudes. Estive viajando pelo México nas últimas semanas me hospedando em um hotel considerado de luxo. Neste hotel, o maior hiato social entre os hóspedes e os funcionários. Tanto que foi muito grande a surpresa, quando tirei 10 minutos do meu dia, para ajudar o Edgar, que estava limpando meu quarto. “Puxa o lençol de um lado que eu te ajudo do outro.”
Que Edgar tenha conseguido terminar seu trabalho a tempo, para descansar, e para estar e cuidar das pessoas que ele ama.

Por fim, mas longe de parar de refletir sobre isto, coloco a importância de envolver a família nos trabalhos domésticos. A educação familiar na manutenção de um lar é de grande valor humano e esta responsabilidade não deve ser delegada para outra pessoa por um mero valor financeiro.

Obrigado pela leitura.
Com carinho,
Mario Gioto

PS: Foram colocados na página do tema três relatos que acreditei interessantes além de uma matéria do El País sobre as babás em uma sociedade ainda de grande desigualdade social.
Acessem aqui: http://conheseremos.com.br/dezembro2016-emprego-domestico/

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